Um inocente morreu. Um policial o matou. No calor da cobertura da mídia, todos procuram uma explicação diante do paradoxo que é um cidadão ser morto por quem deveria protegê-lo: “foi um fato isolado” diz o governo; “é falta de quartel”, argumenta o coronel;“a polícia é despreparada”, fala o especialista.

Mas nem toda a cidade foi pega desprevenida. Parte dela sabe que a truculência da Polícia não é novidade. É o Bom Jardim, o Lagamar, o Conjunto Palmeiras, o Parque Água Fria e tantos outros bairros cujas comunidades sabem que ser pobre, jovem e estar fora de casa à noite é o suficiente para ser visto como em “atitude suspeita” e que a linha que divide “culpado” de “inocente” é
estreita e sinuosa aos olhos dos agentes da lei. O que nos esquecemos é que não é papel do policial decidir quem é culpado ou inocente e não é sua arma que tem que puni-lo. Isso é coisa para o juiz e para a lei. Mas ainda aplaudimos os programas policiais, nos quais a polícia exibe seus troféus ensanguentados, e vibramos com os homens que têm por missão “entrar na favela e deixar corpo no chão”, até o dia em que o chão sujo de sangue não é mais o da favela.

Não surpreende o fato de que o policial que matou o adolescente na garupa do pai, no último 26 de julho, era tido como policial exemplar dentro da corporação. Naquele fatídico dia, ele achou que estava fazendo exatamente o que se espera dele, que é “combater o inimigo”. Porque é isso que pedimos dele. É para isso que o Estado o treina.

Não é só o policial que tem que ser punido. Não é só a Polícia que tem que mudar. Somos nós. Nossa cultura que pede por sangue e nosso Estado que ainda treina uma Polícia que, antes de proteger o inocente, pensa em “matar o bandido”. E, para isso, ela parece estar muito bem preparada.

Carlos Roberto Neto – Assessor jurídico do Cedeca Ceará
Artigo publicado no Jornal O Povo em 07/08/2010

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