Curió. Dez anos de luta por justiça pela chacina que jamais será esquecida

A luta por memória e justiça encampada pelo Movimento Mães e Familiares do Curió completa dez anos de história em 2025. No marco de uma década de mobilização de mães, familiares, sobreviventes e apoiadores, acontecem em Fortaleza os dois últimos júris populares do caso que ficou conhecido como Chacina do Curió. Sete novos réus irão a julgamento a partir de 25 de agosto, às 9h, no Fórum Clóvis Beviláqua. Eles serão julgados pelo Conselho de Sentença (jurados) da 1ª Vara do Júri de Fortaleza. O quinto e último júri, com três réus, está previsto para começar no dia 22 de setembro

Na madrugada do dia 11 para o dia 12 de novembro de 2015, onze pessoas foram brutalmente assassinadas em diferentes locais da região da Grande Messejana, em Fortaleza. Dos 45 policiais militares denunciados pelo Ministério Público do Ceará, 30 permaneceram como réus em três processos, após diversas fases e recursos em instâncias superiores da Justiça. Entre o primeiro e o terceiro júri, seis réus foram condenados.

O caso é acompanhado pelo CEDECA Ceará desde o começo, com atendimento psicossocial e jurídico – fazendo uma intermediação com o Ministério Público e com a Defensoria Pública. Em uma década, a instituição tem atuado em assessoria para que a história de mães e familiares alcance cada vez mais pessoas.

Ao longo desse tempo, enquanto clamavam por justiça, mães e familiares das vítimas se uniram, transformando luto em luta ao longo de uma década. Entre dezenas de atos de rua, mobilizações, reuniões com autoridades, encontros nacionais de mães vítimas da violência do Estado, palestras em universidades, lançamento de exposições, documentários, livro e audiolivro, elas se tornaram as vozes das vítimas da Chacina e contribuíram para vitórias coletivas na luta contra a violência no Ceará.

Exemplos dessas conquistas foram dois importantes órgãos criados pelo Sistema de Justiça do Ceará. Em 2017, a Defensoria Pública do Estado (DPCE) criou a Rede Acolhe, que presta assistência às vítimas de violência no Ceará. Os atendimentos visam diminuir a revitimização e os danos causados pela violência. Em 2019, foi a vez de o Ministério Público do Ceará (MPCE) criar o Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência (NUAVV). Compete ao NUAVV promover a proteção integral às vítimas diretas e indiretas de violência, proporcionando o atendimento das demandas de segurança, de saúde, psicológica e social.

Lutar também pelos vivos

Em julho, elas se reuniram na Defensoria Pública em coletiva de imprensa prévia ao quarto júri. Ana Costa, mulher de José Gilvan Pinto Barbosa, morto na Chacina, lembrou que, durante os últimos dez anos, mães e familiares não pararam. “A gente continuou e vai até o final porque tiraram algo de nós muito precioso. Para que não aconteça mais com nenhuma pessoa, nenhuma mãe que mora na periferia, nenhuma esposa, a gente está lutando a cada dia mais organizadas e esperando nessa esperança. A nossa esperança em nosso coração nunca vai morrer”, ressaltou Ana Costa na coletiva.

Para Suderli Pereira, mãe de Jardel, apesar do tempo, é como se os episódios da Chacina tivessem acontecido ontem. “Nós estamos em busca de memória, para que não se esqueça a violência; e justiça, para que não deixem nossos filhos terem morrido à toa”, pontuou.

Edna Carla Cavalcante, mãe de Álef, rememora a década de reivindicação por Justiça. “Uma justiça tão sofrida, tão dolorosa, tão triste, mas a gente quer essa justiça, pela morte de nossos filhos e familiares”, demarcou Edna.

Sílvia Helena Pereira, mãe de dois sobreviventes da Chacina do Curió e tia de Jardel, lamentou não ser possível trazer os entes de volta, mas compreende que é possível lutar pelos jovens que permanecem vivos nas periferias e comunidades das cidades. “A gente luta para mantermos nossos jovens vivos, termos uma real segurança, um sistema mudado para que possamos ver os filhos serem jornalistas, médicos, o que eles quiserem”, citou Sílvia.

Apoiadores e observadores

Nos momentos que antecedem o júri, as Mães do Curió ganham força nas redes sociais por meio da Coalizão de Comunicação @11docurio, no Instagram, que reúne organizações, entidades e demais coletivos que apoiam a luta por memória e justiça. Acompanhe por lá todas as informações atualizadas sobre o júri.

Outra presença importante nos dias de julgamento são os observadores externos. Neste quarto júri, são esperados representantes do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), Anistia Internacional, Gabinete Assessoria Jurídica Organizações Populares (Gajop) e Conectas.

Marina Araújo, coordenadora-geral do CEDECA Ceará, explica que a presença de observadores externos, nacionais e internacionais, nos júris do Caso Curió, mostra o quanto este caso é simbólico e emblemático para a pauta do enfrentamento à letalidade policial e reparação das vítimas por parte do Estado. “É um júri importante para a justiça brasileira, para as organizações de direitos humanos e, em especial, para as famílias vítimas dessa violência em todo país. Os observadores são especialistas e autoridades que vêm acompanhar de perto o julgamento, dialogar com autoridades locais e movimentos sociais, ver a logística e prestar apoio às famílias. Mostra que o Brasil está atento ao caso e pode se espelhar nele para atuação em episódios semelhantes”, analisa Marina Araújo, coordenadora-geral do CEDECA Ceará.

Com informações do Tribunal de Justiça do Ceará, Ministério Público do Ceará (MPCE) e Defensoria Pública do Estado (DPCE)

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